domingo, 21 de março de 2021

 Belo Horizonte e região


 

Museu do Inhotim (visto acima), Congonhas e Sabará. Amplie seu horizonte quando visitar a capital mineira. Saiba o que há pra se conhecer ao redor de Belo Horizonte neste artigo que escrevi pro site BUENAS DICAS. Clica aí no nome do site então.


Museu do Ouro, em Sabará.

Igreja Bom Jesus do Matozinhos, Passos da Paixão
e casarão histórico, em Congonhas.

Tem mais fotos no INSTAGRAM. Segue lá!


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Renascer

  

"Churchill é um grande homem. Claro que ele é nosso inimigo e sempre foi inimigo do Comunismo, mas ele é um inimigo de respeito, um inimigo bom de se ter."

Josip Broz (Tito), ex-presidente da Iugoslávia.

Parte de Belgrado vista do alto da Torre Avala

Tudo o que está relatado aqui foi escrito em julho de 2014 e os preços são daquela época. Mesmo assim talvez te ajude caso tenha chegado até aqui porque está indo visitar Belgrado, capital sérvia. Fiquei mais de um mês lá, então tenho bastante pra falar. Estou publicando agora porque nesses quase sete anos o texto ficou na gaveta (literalmente, porque foi escrito à mão). Reli em janeiro e publico aqui mais porque me senti saudoso com minhas impressões na época. Alterei muito pouco o texto original e as frases entre colchetes são observações que fiz com meu pensamento atual.

Não é prédio abandonado. Mantê-lo assim é uma escolha.
Continue lendo.

Belgrado - Sérvia

Justamente no ano do centenário da explosão da I Guerra Mundial, fui parar em Belgrado, uma cidade que foi destruída e reconstruída tantas vezes e que sabe bem o que é renascer das cinzas, literalmente. Foram mais de 115 guerras, que resultaram em 44 bombardeios. Isso não influenciou em nada, mas eu achava engraçado quando alguns conhecidos brasileiros me perguntavam se eu não tinha medo de estar indo pra uma zona de guerra. [Gente mais desinformada do que eu]

 

Os bombardeios mais recentes foram em 1999, pela OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte. Foram dez semanas, de março a junho, a fim de não sei quem querer convencer a Iugoslávia a fazer não sei o quê [Gente, desculpe, continuo péssimo em história]. Então esses inimigos destruíram tudo que consideravam importante em Belgrado. Aí o governo local decidiu manter tudo assim, em ruínas, pra sensibilizar as pessoas quando elas olhassem os destroços. Só reconstruíram a Torre Avala, entre 2005 e 2007, no mesmo local da antiga, numa montanha também chamada Avala. A torre continua servindo como transmissora da rede de televisão e também é um lugar turístico, como a montanha toda: paga-se 200RSD (dinars sérvios) para entrar na torre e ver Belgrado a uma altura de 200m. Sinceramente, eu esperava mais pela vista. No resto da montanha, você pode fazer trilhas, olhar os monumentos espalhados por ela. Aos sábados e domingos, o ônibus 400 levava até o alto. Nos outros dias, você precisa pegar o 401, 402 ou 403, descer no pé da montanha e subir tudo a pé, mas é tranquilo. Eu caminhei só por meia hora. [Fiquei até curioso agora pra saber se os ônibus continuam os mesmos]

Torre Avala


Apresentação artística na Fortaleza.

O maior museu de Belgrado é a Fortaleza no Parque Kalemegdan. Como todo parque da cidade, o Kalemegdan tem bustos de várias personalidades da história sérvia. Eu reservava um dia inteiro pra esse complexo porque realmente tem muito pra se fazer lá. Tem gente que até pratica escalada nas paredes da própria fortaleza mesmo. Tem duas igrejas, mas não sei se você terá sorte de encontra-las abertas. Eu não tive. Em compensação, nas três visitas que fiz ao local, uma vez eu fui surpreendido por um cortejo folclórico que cantava músicas típicas e, outra vez, cheguei bem na hora de um recital de crianças que cantaram, dançaram e declamaram poesia. Há um pavilhão cultural, com exposição de artes visuais e um café. Há um museu com uma exposição de biologia, mas eu não quis pagar 200RSD (R$6,00) pra vê-la. A entrada pro Museu Militar é mais barata – 150RSD, mas eu não paguei nada porque não vi ninguém cobrando, talvez por ser domingo. Só que as descrições dos objetos estavam em sérvio, então eu não gastei nem uma hora dentro dele. O mais legal mesmo está do lado de fora, na área gratuita desse museu, a exposição dos tanques de guerra. Por mais 120RSD dá pra se conhecer um poço de água. Se quiser, você não gasta nem dez minutos lá dentro. É só olhar pros 60m abaixo num poço e pronto. Mesmo assim, a sensação de olhar pra baixo naquele buraco com profundidade de mais de dez andares, jogar uma moeda (de baixo valor, lógico) e esperar pela demora do som dela tocando a água é muito boa.



Alguns aproveitam o espaço para escalar;...
...outros, para se casar.

Aí, quando você sai do poço, tome cuidado com os lugares onde você entra. Tem paredões dizendo “Andar nessa área é por sua conta e risco”. Claro que eu entrei mesmo assim; e não aconteceu nada. Ainda dentro desse parque da fortaleza, pagam-se 200RSD pra entrar na Nbojsa Tower, que não chega a ser uma torre; tem só três andares, mas a exposição é interessante. O Museu da História da Sérvia é outro ponto desse grande complexo e também custa 200RSD. Sua exposição não é permanente. O único incômodo que tive no local foi com o zoológico, na parte baixa do parque. As jaulas são muito pequenas pros bichos. Algumas alas, como a dos macacos, passam a impressão de que eles são bichos de laboratório: espaço apertado, expressão triste e cheiro forte. Ingresso a 400RSD.

Flagra picante no zoológico.
Encontro dos rios Sava e Danúbio.

Se, durante toda essa maratona de atrações do Parque Kalemegdan, você se cansar, é só sentar e apreciar a vista. A Fortaleza está num lugar lindo, na confluência dos rios Sava e Danúbio. Claro que sua construção foi muito mais pensando em estratégia de guerra do que em estética. Desse jeito, podia-se avistar os inimigos que vinham pelos dois lados. Mas a parte mais interessante mesmo da fortaleza eu conheci durante o Underground Tour (passeio subterrâneo), oferecido pela agência www.go2serbia.net. Num passeio de duas horas, conhecemos encanamentos antigos, esconderijos, sarcófagos e muito mais da história de Belgrado, em lugares que só as agências autorizadas têm acesso. Eu recomendaria um dia inteiro dedicado a essa parte. Tem vários cafés e lanchonetes no parque pra você recuperar a energia entre os passeios e também várias barraquinhas de lembrancinhas. Pechinche sempre. Eu perguntei o preço de um boné e o vendedor disse 800RSD. Eu me fiz de desinteressado e saí andando. Ele gritou 700RSD. Eu voltei e peguei. [Hoje acho que ainda fui burro. Devia ter pedido 600RSD].

Kalemegdan Park também é conhecida como...
...Belgrade Fortress - a Fortaleza de Belgrado.


Fortaleza

Caso seu tempo for muito diferente do meu e você fazer todo esse passeio pela fortaleza em apenas meio dia, termine visitando as lojas e galerias de arte do calçadão à frente do parque. Se você fala inglês, pode também fazer um tour gratuito de bonde (tram) pela cidade. Eles saíam toda sexta e sábado no fim do dia, da estação de tram perto do zoológico. É melhor você confirmar o horário na central de informação turística principal, no calçadão. A realidade costuma ser diferente daquilo que eles imprimem nos folhetos.

Belgrado tem ainda muito verde pra você ver, entre parques, praças, mais a arborização de algumas estradas e avenidas. Além de serem locais pra se descansar, tomar um café e respirar bom ar, dá sempre pra aprender um pouco mais da história. Karadjordje Park está hoje no local de um antigo acampamento armado liderado por um tal Karadjordje em 1806, líder da primeira insurreição sérvia. [Sei lá o que isso quer dizer... Não sou bom em história. Já disse] Corpos de rebeldes que atacaram a fortaleza estão enterrados nesse parque. O local é a primeira área verde planejada de Belgrado.






A Catedral de São Sava...
... está ao lado da Biblioteca Nacional...


... e vive em reforma.

No Karadjordje ainda está a Biblioteca Nacional, onde eu não encontrei nenhum livro de literatura brasileira – como o mundo todo conhece Paulo Coelho, eu esperava encontrar algo do Brasil. Ao lado, o templo St. Sava, ainda em construção, mas que já é uma das maiores igrejas ortodoxas do mundo. [Em 2021 já deve ter terminado, né, gente? Não é possível...] A maioria da população sérvia é ortodoxa. Ao entrar em alguma das várias igrejas da cidade, talvez você tenha a sorte de ver algum casamento. Eu vi três. Mas o povo não gosta que a gente entre de bermuda na igreja. Em alguns, não gostam que tire fotos. Me olharam de cara feia e até me pediram pra sair uma vez. Minha tática é bancar o desavizado sempre e já entrar tirando alguma foto. [Na verdade, essa ERA a minha tática. Desde 2019, me pergunto se minha foto ou vídeo está colocando a pessoa numa situação desconfortável] Os templos não têm banco e alguns têm o chão coberto de ramos. As pinturas são bem coloridas e com bastante informação. Pensando bem, as que temos no Brasil também, né? A diferença é que nosso olhar, no Brasil, está mais acostumado.

Entrei na igreja bem na hora do casamento.

Uma outra área onde se pode gastar um dia todo é a composta pelo Topciderski Park e o Hajd Park, um ao lado do outro. Este parece mais uma floresta, enquanto o outro possui monumentos, jardins e restaurantes. Ao lado do Hajd, está o Museu da História Iugoslávia, composta por três prédios: o do museu velho tem uma coleção etnográfica de mais de 4.000 itens culturais da antiga Iugoslávia e de outros países também – tapetes, armas, toalhas e vestimentas antigas de várias partes do mundo. A Casa das Flores não tem nada a ver com seu nome – é a antiga residência de Josip Tito Boroz, um cara importantíssimo pra história do país. Pra alguns sérvios, uma das figuras mais importantes da história mundial. Oito cidades levam o nome dele e seu retrato está nas salas de aula das escolas. Seus objetos pessoais ficam em exposição. Seu corpo e o de sua mulher estão enterrados no local. [Hoje, já não tenho certeza se uma pessoa tão egocêntrica e meio que “adorada” tenha sido tão bom assim. Isso tá me parecendo mais aquelas atitudes exageradas de ditadores]




A Casa das Flores é, na verdade um museu...
...onde estão enterrados o ditador Tito e sua esposa.

O Museu 25 de Maio está ao lado do Mausoléu de Tito. Se sobrar tempo, o Museu de Arte Africana está ali perto e o ingresso custava 200RSD. O Jardim Botânico funciona todos os dias, mas estava fechado quando eu estive lá. E também o Museu de Arte Contemporânea, que fica no Friendship Park, que tem árvores plantadas por Ghandi, Rainha Elizabeth, Margaret Thatcher e outros, durante a Primeira Conferência de Chefes de Estado dos Países Não Aliados, em 1961. De lá pra cá, a história mudou muito, mas as árvores estão lá pra lembrar da época em que a Iugoslávia tinha um papel importante entre os países não-aliados. [aliados a quem? Continuo sem saber. Só sei que a Ioguslávia morreu e renasceu como Bósnia, Croácia, Eslovênia, Kosovo, Montenegro e Sérvia]

Ada...
...Ciganljia.

O Tasmajdan é um parque construído sobre um cemitério, assim como o Studentski Park. A mais frequentada de todas essas áreas verdes é Ada Cinganlija, a “praia” de Belgrado. É um grande lago, na verdade, rodeado por vários tipos de quiosques, cafés e restaurantes. Não tem areia, é uma “praia de pedra”. Além de tomar banho de sol e nadar, as pessoas correm, andam de bicicletas e patins e até de “trenzinho”. A circunferência do lago é de uns 8km, então é espaço suficiente pra se exercitar. Já a circunferência da ilha eu não consegui descobrir. Não tente fazer como eu, que quis contornar a ilha toda. Do nada a estrada acabou e tive de voltar tudo sob um sol escaldante. Tem área de nudistas também. Depois das 19h30, muitos cafés já estão fechados, embora o sol só desapareça mesmo às 21h no verão. Mas os pernilongos já estão muito nervosos nessa hora. [E eram mesmo. Fiquei até mais tarde um dia e sofri]

Durante passeio de barco....

...observei outros tipos de moradia.

Essa caminhada toda te deixará com muita sede, mas a água de Belgrado é potável. Então, dá pra beber direto da torneira sem problema, o que é uma maravilha quando viajo porque detesto gastar dinheiro com água. Tem ainda as várias fontes dos parques. Se não for potável, haverá um aviso. Infelizmente eu só vi esse depois de ter tomado um baita gole.

Água potável na maioria das fontes.

Pedir informação algumas vezes era frustrante. Não é todo mundo que fala inglês, mas eu não tenho o direito de me queixar. Eu era o de fora, era minha obrigação falar a língua deles e não cobrar que eles falassem alguma das minhas. [De um lado foi bom, porque me forçou a aprender algo, a entender um pouco o alfabeto cirílico e eu ainda me lembro de muitas palavras em sérvio-croata] Mas claro que ainda não foi o suficiente. Nem se fosse uma língua fácil eu conseguiria chegar lá fluente dentro dos dois meses apenas que tive para me preparar. Por outro lado, se o nativo não está preparada para conversar com um turista, pode acabar no prejuízo. Na feira, eu perguntei o preço de um produto para uma mulher. Depois de falar devagar e fazer algumas mímicas e ela não me entender, desisti e comprei a mesma coisa na barraca ao lado. Teve uma outra ocasião em que pedi informação e o cara, levemente bêbado, aproveitou pra desabafar. Ele disse que os sérvios só se importam com dinheiro, mas que destrata o próprio povo; que eles só tratam bem os turistas porque estes podem acabar dando alguma grana.

Lá é normal estacionar carro na calçada. Tem espaço reservado pra isso.

Eu achei uma cidade muito barata. Quando se fala em Europa, a gente sempre acha que será o olho da cara, mas a Sérvia e a Croácia, pelo menos, não são. Mas também as pessoas têm um salário miserável. Conversei com os funcionários do Museu de Ciência e Tecnologia e eles faziam turnos de 12 horas por dia, dia sim dia não, por EUR200 por mês, uns R$700,00 [em 2014]. Acho que, por isso, quase todo mundo dá o golpe na hora de pegar o ônibus. É assim: não existe cobrador. Ao lado das portas, tem um leitor de cartão. A gente precisa registrar a viagem quando entra. Eu já tinha percebido que muita gente entrava e não pagava e eu ficava imaginando o porquê – talvez estudantes, talvez idosos... Aí os caras do museu me explicaram que as pessoas não têm dinheiro e, como a fiscalização é falha, me encorajaram a fazer o mesmo. E foi o que fiz, mesmo a passagem sendo barata – 72RSD (R$2,00) se comprasse num quiosque perto de quase todos os pontos de ônibus ou 125RSD (quase R$4,00) se comprasse com o motorista no ônibus. Aí um dia a fiscal resolveu aparecer. Me multou em 1000RSD (R$30,00). Então eu paguei muito mais do que a economia que tinha feito. Depois um cara me falou que eu não precisava ter pegado. A fiscal me daria um papel pra eu pagar depois e era só eu jogar o papel fora. [Nesse tipo de coisa, na malandragem, pra ser mais claro, e também no jeito espontâneo e amigável achei o povo sérvio parecido com o povo brasileiro] Aí eu fiquei mais esperto. Não pagava, mas me posicionava com o cartão na mão ao lado do leitor. Se eu visse o fiscal entrando, registrava rapidamente a viagem. No fundo, eu me sentia um pouco culpado por fazer isso, porque parecia que eu estava roubando dinheiro de uma nação, estava tirando vantagem de uma coisa que eu não sentia como sendo minha, mas, como a viagem duraria três meses, e eu ainda estava no primeiro, eu precisava economizar o máximo que conseguisse no início. [Fico com um pouco de vergonha de admitir isso hoje]

Nem tudo era barato. Preço das Havaianas na Sérvia em 2014: R$80,00.

E depois de conversar com os dois funcionários do Museu de Ciência e Tecnologia que corromperam meu caráter, entrei no prédio, vi todo o material de dentista usado antigamente e senti um grande alívio por viver no século XXI. Entrada: 200RSD e você visita as duas unidades do museu, sendo uma num prédio onde era um hospital. A outra unidade é um pouco mais interativa e você brinca enquanto aprende.

Museu de Ciência e Tecnologia.

Mas vi apresentações gratuitas no
meio da rua também.


No Teatro Nacional também não dá pra entrar de bermudas ou regata, mas pelo menos os preços são bons. Paguei 200RSD por cada balé ou ópera. Dá pra economizar assim: compre o ingresso da galeria 3, que é bem ruim; vá pra plateia baixa ou galeria 1 e peça pras recepcionistas te encaixarem em algum lugar, caso sobre.

Curiosidades locais que aprendi com uma guia de turismo: como você chegou ao bar em duas pernas, então você precisa tomar dois shots. Em inglês poderia dizer que Belgrado é awesome (incrível), mas o som dessa palavra é o mesmo do número oito. Aí o povo faz piada e responde uma coisa que é meio um palavrão, mas eu me esqueci. 

Senso de humor sérvio. Ou universal?
Já vi dessa piada no Brasil também.























Marca de sabão em pó, R$18,00 o quilo. Amém?

sábado, 23 de janeiro de 2021

Vidas Opostas

"O sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças".

Augusto Cury, escritor.

Quer saber como foi minha vida de fazendeiro europeu aos 30 anos?

O texto abaixo foi escrito há seis anos e meio, em ocasião da minha viagem ao leste europeu. Durante as cinco semanas que passei na Sérvia, tive bastante tempo livre e escrevi, a mão, como estava sendo a viagem por lá. Resolvi reler as 11 páginas agora no ano novo e achei melhor publicar o mais parecido possível com o jeito que escrevi, pois, quando fiz esse blog, pensava em poder voltar aqui anos depois, pra reler e ter um tipo de contato comigo mesmo – como eu pensava, como eu agia, como eu era anos e anos atrás. E eu tive um pouco dessa sensação enquanto reli o relato abaixo. Dividirei-o em dois textos: este, falando mais sobre a vida no interior da Sérvia, em Farkarždin, lugar tão pequeno que nem quando digito seu nome do Google eu encontro; e o do mês que vem sobre a capital, Belgrado. Digitar este relato agora foi muito legal de se fazer, porque pude perceber como era meu pensamento aos 30 anos e o que mudou ou não de lá pra cá. De vez em quando farei observações atuais e aí elas virão entre colchetes. A hospedagem e comida do tempo que passei lá foi de graça, em troca de eu fazer serviços braçais (leves) pra minha anfitriã, uma senhora de 64 anos na época, um esquema de troca de favores que descobri no site https://www.helpx.net/. Dê uma olhada depois.

Alguns serviços não foram tão leves assim. Continua lendo.

Belgrado - Sérvia

Meu primeiro dia na Sérvia não foi agradável. Já começou mal em Rijeka-Croácia, quando eu perdi o ônibus pra cá. Não entendi aquilo até hoje. Eu estava esperando na plataforma que me mandaram esperar. 30 minutos depois do horário que ele deveria ter chegado eu resolvi perguntar no guichê. Me disseram pra não me preocupar. Era um ônibus “em trânsito”, que vinha de Pula (Croácia) e que poderia se atrasar mesmo. 20 minutos depois eu perguntei de novo e aí me disseram que ele já tinha ido. Não sei como ele passou na minha cara sem eu perceber. Mas eles tinham uma solução – pagando mais 100HRK (kunas croatas = R$15,00) eu poderia embarcar num outro ônibus que estava pra sair. Aceitei e cheguei a Belgrado quase 6h da manhã (550km de viagem). O ônibus não tinha banheiro, mas fez duas paradas para isso e para lanche e outra parada na fronteira Croácia-Sérvia, pra gente descer e carimbar o passaporte.

Fronteira Croácia - Sérvia

Ao chegar a Belgrado, Bojana (leia-se “boiâna”) minha anfitriã, não atendia ao telefone. Comprei um cartão pra telefone público, mas não consegui usá-lo em nenhum telefone. Liguei pra ela do celular de um daqueles caras que ficam na rodoviária com colete fluorescente. [Devia ser carregador de mala, não sei] Eu tinha pedido ajuda a ele, que me ofereceu seu telefone. Como ela não atendia, mandei mensagem SMS. Agradeci a ele pela ajuda e ele me fez um gesto indicando que eu deveria agradecer com gorjeta. Ofereci todas as minhas moedas de kunas, porque eu queria economizar meus dinares, dinheiro sérvio. Ele recusou as moedas e pediu notas. Ofereci a de 10 kunas, ele recusou de novo, achando pouco, mas eu achei que era o bastante por uma mensagem de texto (R$1,50). Ele e o amigo estavam me pressionando tanto que eu me senti intimidado e com a obrigação de pagar pelo favor. Praticamente me arrastaram até uma cabine de câmbio que havia ali perto e eu troquei uma nota de EUR10,00 por dinares. Entreguei uma parte a ele, mas ele não aceitou receber dentro da casa de câmbio e me pediu pra sair. Ofereci pra ele não me lembro quanto agora. Ele continou dizendo que era pouco, mas aí eu insisti na mesma quantia até ele aceitar e ir. [Talvez eu tenha dado o correspondente a uns R$20,00. Me lembrando disso, não acreditei que eu pude ter sido tão otário. Já devia ter deixado ele falando sozinho logo no início].

Fachada da casa onde fiquei hospedado no interior

Em seguida, Hermín, um jovem de uns 20 anos, se aproximou, disse que tinha visto tudo de longe e que eu não deveria confiar naquela gente. Eu disse que achei que ele estava apenas sendo legal, como um italiano foi comigo no aeroporto de Trieste: ao perceber que eu não conseguia usar o telefone público, ele me ofereceu o celular e eu fiz uma ligação de uns dez minutos para empresa aérea Lufthansa (pra Itália mesmo), para mudar a data do meu voo de volta pro Brasil. No fim, eu perguntei a ele quanto custava aquela ligação e ele disse que não era nada. [Nossa, aquele cara foi um anjo mesmo]. Hermín disse que na Sérvia era diferente, as pessoas não eram tão amigáveis como nos outros lugares e que eu jamais deveria confiar num taxista nem naqueles caras dos coletes fluorescentes. Aí ele me emprestou seu celular e mandamos mais uma mensagem para Bojana, avisando que eu tinha chegado.

Uma das belezas de Farkarždin.

Fiquei a manhã inteira sentado na rodoviária esperando por ela sem ter a certeza de que ela tinha visto as mensagens de celular ou o email enviado dias antes. De um posto telefônico, liguei novamente e ela atendeu. Esperei até as 16h. A abracei, mas percebi que ela não gostava de ser tocada. Fomos até um posto policial registrar minha chegada ao país, pois é preciso fazer isso nas primeiras 24 horas em território Sérvio. [Hoje em dia, o procedimento continua pra todos os estrangeiros que não ficam hospedados em hotel. Caso você fique em um hotel, os funcionários já fazem isso pra você – informação dada por Thiago, brasileiro que mora lá e é dono da agência “Bem Vindo à Sérvia”] Em seguida, fomos ao apartamento onde eu fiquei hospedado. Ali, eu recebi minha primeira tarefa. Fiquei cinco horas limpando apenas o quarto, que, segundo ela, não estava tão sujo (!). O apartamento, quitinete, na verdade, estava imundo. Parte da noite foi limpando só o quarto, que era conjugado com a cozinha. Fiquei o dia seguinte todo com o nariz escorrendo e espirrando por ter removido todo o pó. E ela ainda falou que eu deveria ter limpado o banheiro primeiro, porque o quarto não estava tão sujo. [Na lógica dela, fazia mais sentido o lugar onde você toma banho ser a prioridade na limpeza e não o lugar onde você dorme] Ela não ficou no apartamento, mas voltou pra vila, pois a casa da vila nunca podia ficar sozinha, por causa dos bichos.

Jardineiro, minha outra função na casa.

A Sérvia tem aproximadamente 7 milhões de habitantes, dos quais 1,5 milhão estão na capital federal, Belgrado. A moeda é o dinar. Na época da minha visita, em junho de 2014, R$1 = EUR3,30 e 1EUR = 115RSD. Então, pra pensar o quanto eu gastava, eu dividia o preço por 100 e multiplicava por três. Era mais fácil do que dividir por 34. Por exemplo, uma plieskavitza com uma porção de batata fritas e uma lata de Coca custavam 300RSD. Então, eu estava gastando R$9,00 por aquela refeição. Plieskavitza é um sanduíche preparado à moda turca. Bom, mas mais gostosos são o burek, a pita de espinafre e a baklava de nozes. [Aqui no Brasil mesmo são coisas fáceis de se encontrar em restaurante árabe. Descobri depois que morei em São Paulo] Só digo que os três são de massa folhada, como quase tudo lá. Eu quase sempre comia em padaria (pekara em sérvio; leia-se “pêcara”) e já entrava pedindo a baklava orah (de nozes).

Pastor da vila


Farkarždin

Igreja católica

No dia seguinte, pela manhã, fui de ônibus para a pequena vila de Farkarždin (leia-se “farcárchidin”, com R tipo em “caro” e D como em “dado”) , aprender quais seriam as minhas obrigações lá. Ao chegar à parada, mais um imprevisto: os dizeres dos ônibus estavam em cirílico, então eu tive de deduzir muito rápido, pelas vogais, o ônibus que iria a Farkarždin. Acenei e confirmei com o motorista. Aí eu vi como uma pessoa analfabeta se sente. E fiquei imaginando se teria a mesma sensação quando visitasse a China, ou Japão, ou outro lugar que não usa o mesmo alfabeto que o nosso. [Que delícia foi reler esse trecho, pois, cinco anos depois, em 2019, eu estive no Japão, China, Rússia e Emirados Árabes, todos países com alfabeto que não entendo e que me trouxeram de volta a sensação de não ser alfabetizado]

Na Sérvia, ambos os alfabetos, cirílico e latino, são usados. As crianças começam aprendendo as letras que são iguais nos dois; depois seguem se desenvolvendo nos dois e aí escolhem qual usar. Na televisão, os canais usam apenas um deles. Só existe dublagem pros desenhos animados. Tudo é legendado, até as novelas turcas, que me surpreenderam – pareciam tão bem feitas quanto as novelas da Globo.



O alfabeto cirílico também era terrível quando eu queria comer. Não dava pra entender nada do cardápio. Se bem que, no início, mesmo no latino eu não entendia nada. Acabava escolhendo tudo pelo visual mesmo, até descobrir a baklava orah, uma espécie de torta de nozes mil folhas. Quase tudo lá é de massa folhada. Se não fossem as aulas de dança que fiz e as longas caminhadas, eu teria engordado mais.

Cemitério em Farkarždin

Farkarždin é uma pequena vila com menos de 2000 habitantes [a não sei quantos km de Belgrado, porque não a achei no Google Maps, mas eram menos de 2 horas de ônibus]. Lá, eu tive de alimentar os dois cachorros, dois gatos e seis galinhas duas vezes por dia; cortar a grama dos quintais da frente e do fundo; carregar um mato já meio seco do pomar para o rio. Limpar a casa não me foi pedido, mas eu não consegui evitar. Era muita imundície para uma pessoa que, contraditoriamente, sempre tinha de lavar as mãos quando chegava em casa. Ela elogiou meu trabalho, mas disse que tinha bagunçado (!) o banheiro depois de eu ter limpado e separado todos os objetos por categoria no armário. Disse que agora não conseguia achar as coisas.

Fiz serviços de costura também.

No meu ponto de vista, meu único erro foi com o tapete da sala que era grande e pesado: enrolei-o levei pra fora. Não tinha rodo, então eu o limpei com vassoura e sabão em pó e deixei secando no sol por três dias, mas houve chuva. Então eu voltei com ele pra sala ainda úmido, o que causou mal cheiro que não disfarçava nem com os incensos que acendi. E algumas partes dele ficaram marrom, com aparência mais suja. Ela me xingou horrores, porque ela tinha me explicado pra limpar com uma esponja úmida, dentro da sala mesmo. Claro que eu ignorei porque eu não achava q seria suficiente e eu queria tirar todo o pó daquele lugar. Daí, segundo ela, agora eu deveria passar o paninho úmido no tapete todos os dias, até o cheiro sair. Fiz só uma vez, porque ela estava em casa, me olhando.

Teve um dia que as crianças se ofereceram pra me ajudar

Quando ela foi visitar sua família em Montenegro, país vizinho, por mais de uma semana, levei o tapete pra fora, joguei água e detergente e usei o rodo que comprei em Belgrado e que ela falou que era um objeto de limpeza inútil, que eu poderia levar pro Brasil. O cabo quebrou logo no começo da lavação e eu fiquei puxando aquela água de quatro até o rodo quebrar mais. Secou no sol por dois dias, joguei vinagre e deixei por mais um dia e coloquei na sala de novo e o cheiro saiu, mas umas manchas continuaram. Fiz um vídeo que mostra o estado da casa, mas já estou me sentindo culpado demais por expor uma pessoa assim. [Só publico isso pra mostrar como existem modos totalmente diferentes de ver o mundo e que o “certo” pra algumas pessoas não é “certo” pra outras. E isso vale pra muitos outros conceitos relativos que teimamos em encarar de forma objetiva]

Não me lembro do nome do que usa camisa do Brasil.
Os outros são Veljko e Dusan.

Bojana tinha um comportamento muito contraditório. No supermercado, ela sempre pegava os produtos do fundo da prateleira, porque os primeiros “ficam cheios de poeira levantada pelo caminhar das pessoas”. Ao chegar em casa, ainda limpava-os com um pano e fazia várias atividades de luva. Não andava em casa com os mesmos sapatos que usava na rua. Não gostava que a abraçasse para tirar fotos. Ao mesmo tempo, vivia numa imundície.

Bojana e eu na principal praça de Zrenjanin.

Nós só dividimos o mesmo teto três noites, porque ela deixava eu ficar em Belgrado quando ela estava em Farkarždin. A casa de campo é que não poderia ficar vazia, por causa dos bichos. Ao mesmo tempo em que eu a achei grossa ao falar comigo, ela tinha algumas atitudes legais. Ela quis saber sobre o Brasil, me levou para passear em Zrenjanin (leia-se “zreniânin”) um dia – na verdade, ela tinha de ir lá de qualquer jeito, mas me mostrou um pouco a cidade. E ela me autorizou a colher as cerejas do seu pomar, vendê-las na feira e ficar com o dinheiro. [Muito bom ler isso seis anos depois, porque minha memória registrou apenas o lado ruim da pessoa; hoje pude me lembrar do lado bom]. Vendi 6kg da cereja doce (tresnja) a 80 dinars o kg (lucro de uns R$8,00) e só não vendi mais porque eu já tinha comido horrores dela.

Aproveitando a safra das cerejas.

Na semana seguinte, a venda da cereja azeda (visnja) foi um fracasso. Me puxei, acordando às 5h da manhã pra colher, fui com pelo menos uns 10 kg e não vendi nada, mesmo sendo 40 dinars/kg. O povo nem experimentou. Aí fui obrigado a beber 1 litro de suco de cereja por dia. Mesmo assim, foi bom pra eu me distrair um pouco em Farkarždin, porque não havia nada pra fazer lá. À noite, eu assistia a Friends, Big Bang: a Teoria e mais um filme, tudo com som original e legendas em sérvio, o que me ajudou a aprender um pouquinho do idioma.

Fazendo renda extra na Sérvia.

Um dia saí andando por todas as ruas e em três horas eu já tinha andado por tudo. Aí me envolver com as tarefas da casa acabava sendo uma terapia. Carregar mato era repetitivo, mas eu pensava sobre muita coisa, acabei até montando coreografia de Zumba enquanto trabalhava. No fim da tarde, eu ia pra quadra da escola, porque o povo ficava lá jogando futebol. Eu só arrisquei ficar no gol um dia e nunca mais. Acho que eles devem ter ficado decepcionados com o brasileiro perna de pau. Em compensação, nos divertimos muito na aula de palavrões em sérvio que eles me deram. [Me lembro de vários até hoje]

Prijateljstvo: "amizade", em sérvio