segunda-feira, 6 de junho de 2022

A Grande Viagem

"Até a jornada de mil milhas começa com um pequeno passo."

Provérbio japonês.


Na margem do Rio Sumida.
Ao fundo, a cervejaria e o Skytree.

Sabe quando você ficou em quarentena, em casa, e chegou uma hora que não tinha mais o que fazer? Você já tinha faxinado todos os cantos da casa; organizado as peças do seu guarda roupa por cores, tamanhos e tendências de cada estação; já estava até fluente em um novo idioma; já tinha zerado a Netflix; e lido a Enciclopédia Barsa duas vezes? Essa sensação alguns japoneses já conheciam. Quando estive no Japão, em abril de 2019, era Golden Week, um feriadão que acontece todo ano. Mas, daquela vez, ele foi ainda maior, de 27 de abril a 6 de maio, totalizando 10 dias de folga. Além dos sábados e domingos desses dias, e os feriados que já são normalmente um atrás do outro (Dia da Constituição, Dia do Verde e Dia das Crianças) eles têm o costume de compensar feriados - quando um feriado cai num domingo, ele é transferido pra segunda-feira. Nesse meio tempo também havia um acontecimento raro, que era a ascenção do novo imperador. Numa terra onde as pessoas pensam bastante em trabalhar, esses dez dias de folga na prática não era pra todos, porque as lojas, restaurantes e diversos serviços que eu usei estavam sempre abertos, parecia estar tudo funcionando perfeitamente.


Em Tóquio, fiquei hospedado bem perto do Skytree, na região de Sumida (eu ria com esse nome) então foi a primeira região que conheci. Skytree é uma torre com um mirante a 155m de altura, entrada 2.500 yenes com opção de mais 1.700 yenes por passeio guiado de 50 min. Existe também um passeio onde falam exclusivamente sobre a construção do prédio: dura 40 min e custa 1.000 yenes. Em abril de 2019, a cotação de yen pra real ficou mais ou menos assim: 1 yen = R$0,04. O jeito que eu calculava e chegava num valor muito próximo era: cortava os dois últimos algarismos da direita e pensava em dólar. 2.500 yenes então seriam o mesmo que US$25. Em abril de 2019, US$1 era praticamente R$4,00. Logo, 2.500 yenes eram R$100,00, preço do mirante; com passeio guiado: R$168,00. Voltando: o Skytree é a torre (eu disse torre e não prédio) mais alta do mundo, então talvez até seja uma coisa que vale a pena. Mas a cidade tem outros observatórios gratuitos (embora mais baixos) que já nos deixam satisfeitos, sem precisar desembolsar um yen. É uma pena que depois da pandemia que sofremos talvez os preços das coisas tenham sofrido alteração demais. Lamento que talvez você não consiga se basear nos preços que ponho aqui, caso esteja lendo este texto com o propósito de ir pro Japão.

Observatório do World Trade Center - grátis.

Já o hotel onde fiquei tinha o quarto tão pequeno, que era menor do que a cabine interna de navio de cruzeiro. Nem desfiz a mala. Eu até tinha a impressão de o banheiro balançar um pouco. Tóquio é a metrópole mais populosa do mundo (imagina a população do Canadá toda numa só cidade. Então, é lá). Logo, os japoneses precisam economizar espaço em tudo, a ponto de até parecer que existe uma cidade subterrânea. Sim, aconteceu comigo de descer uma escada em uma praça de alimentação pra ir ao banheiro e parecia que eu estava andando quarteirões e mais quarteirões debaixo da terra. Talvez você encontre até subsolos de dois andares. Sim, dois pisos abaixo do nível da rua, e, às vezes, bem compridos. Outra coisa curiosa é que há uma preocupação já internalizada com o fluxo e com o movimento das pessoas por qualquer espaço. Há muita sinalização indicando onde você pode ou não ficar e, dependendo do evento, há até pessoas para direcionarem as outras a não interditarem o caminho dos outros. Não fui a nenhuma milonga (baile de tango) em Tóquio, porque as entradas de todos os lugares que achei passavam dos R$100,00, enquanto que em Buenos Aires, a gente paga R$8,00.

Templo Senso Ji, em Asakusa.

Parecia que a cidade toda tinha resolvido
rezar no Templo Senso Ji naquele dia.

No segundo dia, explorando Sumida um pouco mais, vimos uma padaria com uma fila meio grande e pensamos: “Se tem tanta gente, é porque é bom”. Observamos o que as pessoas estavam comprando e era um doce de batata doce incrível. A intenção depois desse café da manhã era comprar entrada do passeio de barco, da Tokyo Cruise, cujo preço esqueci, mas que dura 40 minutos e a estação é do lado do metrô Asakusa. Muita gente visita também o templo Sensoji, ali perto, grátis também e que estava bem tumultuado, mas vale a pena. Recomendo tomar um sorvete de chá verde (350 yenes, bem fácil de achar em qualquer lugar), sentar no fundo do barco, porque aí você tem a visão igual dos dois lados da margem do rio, não fica aquela sensação de estar privilegiando uma vista e ignorando o outro lado por completo. Se bem que os prédios que margeiam o Sumidagawa River são meio parecidos dos dois lados. O legal do passeio é que o barco passa por debaixo de várias pontes. Desci em Shiodome, já outro bairro, e visitei o observatório do World Trade Center, grátis. Desci e fui andando ao bairro de Ginza.

Uniqlo vista do terraço do Ginza Six.

A área de Ginza é onde estão as grande lojas de marcas, até fiquei imaginando se ali não seria um dos metros quadrados mais caros do mundo. De todo o planeta, a loja da Uniqlo que tem mais andares está lá, total de 12. Eu não conhecia Uniqlo e acabei me identificando muito com essa marca. É bem popular, preço ok, as peças são bonitas, simples e com ótimo caimento. Comprei uma cueca e uma camiseta. Mas mesmo que você não goste de ficar olhando vitrine, visitar Ginza vale muito, principalmente no domingo, quando a Avenida Chuo Dori está fechada e vários artistas tomam a rua, mais ou menos o que acontece na Av. Paulista, em São Paulo. Suba no observatório do shopping Ginza Six, que lá você tem uma visão 360 graus da região. Interessante mesmo que seja só de uns oito andares mais ou menos. Quanto às lojas, a área de Harajuku é mais interessante porque é cheia de brechós. Eu mesmo que não sou muito ligado em roupas, acabei comprando duas camisetas e um shorts num dos brechós.

Parece que a cidade toda também gosta 
de comprar em Harajuku.

E como se deslocar? A pé, é fácil, você só terá de pensar se vale a pena com relação à distância que for percorrer mesmo. Mas fique atento aos ônibus gratuitos (free shuttle bus). Ele é um ônibus comum, não se destaca muito entre os outros, mas as paradas estão sinalizadas com uma placa vermelha. Eu demorei a descobrir isso, então só peguei um, que passa perto da Tokyo Station, mas existem outros três (em Marunouchi, em Nihonbashi e am Tokyo waterfront subcenter), mas repesquise a respeito, pois pode haver novidades a respeito dessas linhas. Sobre o transporte público regular, recomendo que você compre um cartão Pasmo ou Suica numa das máquinas das estações. Eles servem pros ônibus também e pra muitos tipos de transporte até em outras cidades japonesas, não somente Tóquio. Com eles, a tarifa fica mais barata, sem contar que você não precisa ficar avisando à pessoa do caixa sobre o local onde você vai descer, já que a tarifa lá varia de acordo com o tamanho do seu deslocamento. Quanto mais longe do seu embarque a estação for, mais cara a passagem vai ficando. Suponhamos que você não tenha o cartão e, no meio do caminho, resolva descer num lugar diferente? Aí, na hora de sair, terá de ir à bilheteria de novo e explicar que você comprou o bilhete pra descer num determinado lugar, só que resolveu descer em outro. Se você for fluente em japonês, até acho que isso não seja um grande problema. Só que, no Japão, você encontrará pouca gente pra falar inglês com você. Agora imagine tendo de se virar pra explicar uma situação dessa por meio de gestos. Em suma: compra esse cartão, que a passagem até fica um pouco mais barata. Outra vantagem: ele serve pra você fazer compras também. Tem muitas lojas com o selo Suica ou Pasmo no caixa. Isso significa que ali ele vai funcionar como um cartão de débito mesmo. Os japoneses são fera na praticidade. Então, encha esse seu cartão com créditos, sem medo, e use no metrô, no ônibus, no supermercado... E se chegar a hora de deixar o país e ele estiver cheio ainda, vá à bilheteria de alguma estação, devolva-o e pegue seu dinheiro de volta. Mas atenção: ao devolver, 220 yenes (R$8,00 na época em que fui) ficam retidos. Então, o melhor é conseguir usar tudo mesmo e trazer o cartão vazio de lembrança. Ficou pasmo com tanta novidade? Eu também.

Criatividade japonesa na moda.

O bairro de Akihabara é a capital mundial dos eletrônicos dos mais diversos tipos. Animes, vídeo games, mangas, são coisas muito fortes na cultura japonesa, então é um bairro muito interessante de se conhecer também. Foi lá que eu realmente entendi o quanto os jogos eletrônicos e os mangás são algo tão importante na cultura deles. Eu joguei Street Fighter num Super Nintendo de graça no meio da rua! E perdi pra uma criança de uns dez anos, acho. 

Cosplays de Mario Kart cruzam por você 
todo o tempo.

Falando em mangá, é comum você ter a sensação de que está dentro de um às vezes. Dá pra ver a turma do Mário Kart passando por você quando for atravessar a rua, e várias atendentes de loja que parecem ser irmãs da Sailor Moon. Uma curiosidade que percebi lá é que as mulheres acham sensual andar com os pés virados pra dentro. O que, pra mim, é uma falta de consciência corporal na pisada, para elas é uma arma de sedução, muitas se forçam a ter a pisada pra dentro, então verá muitas japonesas andando com os joelhos levemente apontando um pro outro.

As comidas das vitrines são réplicas não comestíveis
do prato que o estabelecimento serve.

Chegou a hora de dizer “sayonará”? Então, preste atenção aos procedimentos aeroporturários. Eles são mais rigorosos com o peso da mala e o número de volumes que você carrega. Então vai ser mais difícil sua mala de mão passar meio desapercebida se for grande. Se eles desconfiarem, vão pesar mesmo. E na bagagem despachada não pode ter nenhuma bateria. Minha amiga foi chamada no alto-falante por conta disso. Teve de abrir a mala e retirar a bateria. Para ir pro aeroporto, compensa mais o metrô mais lento, porque, a partir da estação Shimbashi, por exemplo, ele leva 80min em vez de 50min (comparado ao trem expresso), mas custa a metade do preço e te deixa dentro do aeroporto de Odaiba também. Por uma diferença de tempo de só meia hora, acho que vale a pena a economia. Entre um terminal e outro dá até pra ir a pé mesmo. Vale lembrar de que o Japão está na lista dos países mais caros que já visitei. Pelo menos a água da torneira lá é saudável, então esse será um gasto a menos. Se você chegou até o final do texto, Arigatô (outra palavra que aprendi a falar em japonês).

West Exhibition Hall, em Odaiba.

sábado, 7 de maio de 2022

Kananga do Japão

"Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota."

Provérbio japonês


Não sei o nome desta flor, mas, com certeza, não é cananga.

Japão foi o destino final do cruzeiro de 28 dias com o MSC Splendida, onde viajei em abril de 2019.  Foi um dia em Kagoshima e dois em Yokohama, sendo que eu desembarcava no segundo dia. No Japão, em geral, quase tudo que visitei tinha a ver com religião ou com o militarismo. Então, vou começar te ensinando o que fazer quando visitar um templo. Logo na entrada, você verá uma grande bacia de água, parecendo um poço, com um recipiente com um cabo grande. Ele será usado pra lavar suas mãos e sua boca. Pelo amor de Deus (quer seja o amor do seu deus ou do deus do templo que você estiver visitando), não enfie a mão diretamente na água. Você deve derramar a água dessa vasilha sobre sua mão esquerda primeiro, sem deixar a água suja cair dentro da água limpa. Depois, lave a direita. Pra limpar a boca, com a mão direita segurando a vasilha, você enche a palma da sua mão esquerda de água, suga o líquido e bocheche algumas vezes. Coloque a vasilha no lugar. Sabedoria oriental antes mesmo de época de koronaváyrus.

Atenção às regras de etiqueta nos templos.

Tem um outro procedimento também, mas eu não fiz. Depois do ritual da lavagem de mãos e água, reverencie o templo, inclinando o tronco à frente duas vezes. Bata palmas discretamente duas vezes e reverencie mais uma vez – só com uma inclinação. Há uma caixinha onde você pode depositar algum dinheiro, mas essa parte eu pulei.

O primeiro porto japonês que o MSC Splendida parou foi Kagoshima, e tivemos um procedimento que, hoje, depois de ter vivido o koronaváyrus, eu acharia super normal, mas que, no ano passado, eu estranhei: passar por uma imigração que incluía controle de temperatura corporal. Estranhei, mas compreendi, já que outros surtos de epidemia recentes que tivemos também partiram da Ásia, então, o comportamento deles é bem influenciado por essas últimas experiências que tiveram na área da saúde.

Casa Sengan-en.

Em Kagoshima, o que há pra se visitar é a casa onde viveu a família Shimadzu e o príncipe Shimadzu Tadayoshi, um nome que, pra mim e, talvez, pra você também, não represente nada, mas que deve ter sido alguém muito importante pros japoneses, porque até o balde onde ele fazia as necessidades fisiológicas está lá exposto. Os médicos olhavam o vaso sanitário dele todo dia, pra ver se ele estava bem de saúde. Vale a visita porque o local é lindo e dá de frente pro Monte Fuji. Sengan-en é o nome da casa, construída em 1658, combinando elementos japoneses e chineses, e é patrimônio cultural da humanidade. É um complexo grande, mas nem tanto. Dá pra passar metade do dia. É interessante entrar na casa do príncipe para observar como são as janelas e portas das casas japonesas, o banheiro de antigamente, a iluminação, jardim interno... Além da casa, o que se vê por ali são lojas com artesanatos muito simpáticos; jardins e santuários com vários deuses; salas onde se explicam um pouco do militarismo japonês.

Só pra ter certeza de que vocês acreditariam na parte que eu disse
que os médicos estudavam o cocô do príncipe diariamente.

Muitas crianças já começam aos seis anos a ter treinamento samurai. Nas aulas de práticas samurais (não sei se todas), é recomendado que cada golpe seja dado como se fosse partir a Terra em duas e o grito é com o propósito de intimidar o oponente. Isso me provocou uma curiosidade grande e senti vontade de morar lá um tempo, a fim de tentar entender um pouco mais a história e o pensamento dessa gente. Mas essa é uma vontade que me bate em quase todos os lugares que visito. Não conheço a história do Japão, mas, por ver as artes marciais tão presentes, só consigo pensar que aquela gente tenha passado por muitas guerras e que isso tenha ficado na memória do sangue da nação. Pena que não deu pra ir a Hiroshima nem a Nagasaki, e ver como essas duas cidades praticamente ressuscitaram depois da segunda guerra. 

Jardim Sengan-en.

Em Segan-en, fiquei sabendo de uma história de quando o exército japonês foi pra Coreia e levou sete gatos, a fim de saber as horas. O "relógio" deles eram os olhos dos gatos. Se a regra ainda valer, funciona assim: às 6h e às 18h os olhos dos gatos ficam redondos; às 8h e 16h, se parecem com um ovo; às 10h e às 14h, com semente de caqui; e ao meio dia como uma agulha. Eu não tenho gato pra conferir, mas depois você comenta aí se os olhos do seu gato ficam assim também.

Olho dos gatos de acordo com a hora do dia
Como saber que horas são olhando no olho do seu gato.

Yokohama, cidade que tem o mais antigo e importante porto do país, foi onde desembarquei do Splendida após um mês a bordo. Não conheci a cidade direito porque num dia optei por visitar Kamakura e, no outro dia, por conta das malas, era mais prático ir direto pra Tóquio, onde fiquei por dez dias. No entanto, vi no mapa turístico umas coisas a se fazer em Yokohama e três me pareceram interessantes: Shin Yokohama Ramen Museum – é um praça de alimentação cuja ideia é de que você experimente ramen (macarrão) do Japão inteiro sem precisar pegar um avião. http://www.raumen.co.jp/english/ Se você for fanático por macarrões, então recomendo também o Cupnoodles Museum https://www.cupnoodles-museum.jp/en/

Me parece que quase todas as grandes cidades da Ásia (talvez do mundo) precisam ter uma mini China. Mas saber de uma Chinatown no Japão eu realmente achei engraçado. É que, pra nós, ou pelo menos pra mim, as culturas chinesas e japonesas são meio semelhantes. Há muitas coisas que eu não sei ao certo se vieram do Japão ou da China. E a Chinatown de Yokohama é uma das três maiores do Japão. Então, são essas três coisas de Yokohama que te recomendo conhecer, mesmo que eu mesmo não tenha conhecido.

Parque Hasedera, em Kamakura.

Douglas, um dos animadores do MSC Splendida que gosta muito da cultura japonesa, é quem me recomendou passar um dia em Kamakura, que não estava no roteiro do navio, mas que é muito perto de Yokohama e dá pra ir de trem. Só que a parada que você desce é da estação de Hase, um pouco depois da estação Kamakura e onde tem um ponto de informação turística. Tudo o que eu disser de agora em diante dá pra visitar a pé mesmo entre um lugar e outro. No Japão, há fila pra entrada no trem ou qualquer outro meio de transporte, então respeite. Eles são muito organizados.

O Grande Buda sentado, em Kamakura

A menos de dez minutos de caminhada de Hase está o famoso Buda sentado, de 13m de altura, 121 toneladas, e que levou dez anos pra ser construído, começando em 1252. 200 yenes a entrada ao local, mais 20 yenes, se quiser ver a estátua por dentro. Mas gostei mais do Hasedera Temple, um outro parque com budas bem menores, mas às centenas, talvez milhares, acho que foi mais interessante, porque eles tinham diferentes expressões e o local era mais florido e arborizado:

 



 

Seu dia por Kamakura não precisa ser só isso. Há um grande número de outros templos e o caminhar pela cidade, especialmente sob as árvores da alameda Wakamyiaoji vale muito. E tanto Kamakura quanto Kagoshima, pelo seu foco turístico, é que nos deixam com a sensação de que turismo no Japão só tem a ver com religião budista e com as forças militares. Em Tóquio, minha parada seguinte, a minha impressão já foi diferente. Por isso, acho importante conhecer mais cidades quando se vai a um país, para evitar falas que generalizam uma cultura ou um pensamento.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

O Céu é de Todos

"No céu, não há distinção entre leste e oeste. As pessoas criam distinções em suas próprias mentes e então acreditam que são verdadeiras."

Buda.

Passeando pelo Victoria Harbour, em Hong Kong...

...descobri que minha mão é maior que a mão de Jackie Chan.

Antepenúltima parada do navio de cruzeiros MSC Splendida: Hong Kong e foi ali que começou a bater uma certa depressão, por estar a apenas uma semana do fim dessa grande viagem de barco que eu fazia. Em abril de 2019, o dólar de Hong Kong variou muito pouco, ficando sempre em torno de R$0,50. Então, é fácil pensar nos preços que eu paguei quando estive lá: divida pela metade e você terá o correspondente em reais.

Uma pequena pausa pra esperar a chuva passar.

No meu dia um em Hong Kong, coincidiu de acontecer um tsunami uma forte tempestade enquanto eu passeava na beira do mar, por um calçadão onde está a versão deles da calçada da fama (Avenue of Stars). Mas um Starbucks com wifi me salvou. Depois de esperar uma hora mais ou menos, voltei a passear por esse “Caminho das Estrelas”, um passeio à beira mar que homenageia grandes astros do cinema nacional, mas que não é algo exatamente como eu esperava. Não podemos chamar de calçada da fama, porque as marcas que os famosos fazem é com as mãos, e as marcas dessas mãos estão no corrimão que serve como barreira de segurança entre a orla e o mar, então talvez ela passe desapercebida para muitos. Até mesmo a famosa estátua do Bruce Lee eu quase não vi porque eu andava admirando a água e os prédios do outro lado, e a estátua não fica em evidência, porque, ao caminhar por ali, a tendência é muito maior de olhar pra água e pra margem oposta. Ela fica ao lado do Starbucks e de que costas pra quem está passeando na orla. Peguei um barquinho pra atravessar pro outro lado da orla, até onde está o monumento da Golden Flower (Flor Dourada), que não tem nada demais. Não me lembro do valor da balsa, mas era bem baratinho.

Famosa estátua do Bruce Lee, na Avenue of Stars.


De lá, foi uma saga pra chegar até a famosa escadaria rolante, na Hollywood Street. Não sei o que houve, mas, em Hong Kong, tive muita dificuldade de me guiar pelo mapa turístico. Fiquei meio decepcionado ao chegar, porque esperava algo BEM maior. Ao chegar ao topo da escada, que não é uma escada única, mas várias escadas rolantes uma após a outra, há um prédio que me pareceu ser histórico, com um grande pátio no meio, onde havia uma exposição. Depois, fui andar meio sem rumo ali pelo centro. Hong Kong tem leis rígidas para manter a limpeza. Isso inclui multa de HK$1.500,00 (R$750,00) pra quem cuspir ou jogar lixo no chão. Mas também é fácil de se encontrar banheiros pelos locais onde você anda.

Arranha céu.

Se você usar o transporte público, informe-se sobre as opções de cartões de transporte, chamado de Octopus, que significa polvo em inglês. Existe um passe turístico de HK$65 pra adulto e HK$30 pra crianças, ou o passe normal, que você recarrega quanto quiser, sem se preocupar em perder dinheiro porque, quando não quiser usá-lo mais, pode ir ao caixa, devolver seu cartão que eles te devolvem os créditos em dinheiro. Precisa passar o cartão no leitor na entrada e na saída do metrô, porque o valor debitado é de acordo com a distância percorrida. E recomendo que sempre passe também na saída, do contrário seu cartão fica travado na sua próxima entrada e você terá de procurar um funcionário pra destravar e aí será descontada uma taxa extra por isso. De táxi, caso fique desconfiado, dentro dos veículos tem uma tabela de preços que explica o preço da bandeirada e o preço por quilômetro rodado. Dependendo da mala que você tiver, talvez o taxista te cobre por ela também.

Teleférico com piso transparente. Tem coragem?


O céu ora estava assim...
...ora assim.
 






O passeio de teleférico talvez seja o mais interessante de se fazer em Hong Kong. Fui de metrô até Tung Shung Station, onde tem um shopping, esperei uma hora na fila, que era o tempo previsto. Há uma placa lá, que diz o tempo previsto de espera. O teleférico percorre um caminho de quase 6km para a famosa estátua de bronze do Buda, e você tem uma ótima visão da cidade, do aeroporto e das montanhas e, se pagar um pouquinho a mais, tudo fica ainda mais incrível: a viagem de 25 minutos pode ser no bondinho com o piso de vidro, dando ainda mais pânico emoção ao trajeto. Quando passa sobre o rio é espantosamente maravilhoso. Mesmo quando estava nublado, adorei. Imagine como não deve ser deslumbrante com o céu claro. Pra mim, só esse passeio no vagão com piso de vidro já vale por si. Acho que experimentei as quatro estações do ano em Hong Kong no mesmo dia. Ao desembarcar do teleférico na vila do alto da montanha, é só andar um pouco, até a escadaria de uns 200 degraus até a base do Buda. Dizem que é o maior Buda do mundo a céu aberto. A escadaria te deixa tão perto, que dá pra se ver os detalhes dela. É tipo subir na estátua do Cristo Redentor: difícil conseguir tirar uma foto sem ter milhares de figurantes ao seu lado. Dá pra entrar na estátua por um valor extra, mas eu não quis.

Expectativa. 
Realidade.

 









Essa viagem de quase uma hora de teleférico (somando ida e volta) não é só pra ver uma estátua de um Buda. Ela apenas é a principal atração de uma pequena vila, onde tem também alguns templos, lojas de lembrancinhas (deixe pra comprar lá embaixo na cidade por um precinho um pouco melhor); restaurantes, que até estavam baratinhos (consumi uma Schwepps sabor gengibre); e tem a vista do próprio trajeto, que vale por si só. E tem de ser de dia. À noite o local fecha, então o fervo da noite fica sendo o show da Sinfonia das Luzes, que você assiste da mesma orla onde está a Calçada (de mãos) da Fama.

Interior de um dos templos. 

Outra opção, em vez de ver esse Budão (sem N no meio), é você visitar dez mil budinhas, no Ten Thousand Buddhas Monastery. Eu não consegui observar todos com cuidado, mas dizem que as estátuas não se repetem. Quem te recepciona nesse passeio gratuito é a macacada que fica ao redor da trilha. Uma delas ficou nervosa porque eu estava encarando muito. Vi uma placa dizendo que pode ser que você se esbarre com algum monge que te peça dinheiro. Neste caso, não dê. Ou, sim, porque o dinheiro é seu e você faz o que você quiser.

O templo está localizado em Sha Tin.

Dizem que cada buda tem uma expressão distinta.

Alguns estão precisando de restauração.

"Falsos monges em busca de almas.
Não lhes dêem dinheiro."