“Nunca entendi música, nem tive
professores de pintura, nem sou arquiteto, no fundo sou um nada; nada mais do
que um homem com paixão pra se expressar."
Carlos Paez Vilaró, nada mais do que um homem com paixão pra se expressar.
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Foto da foto de Casapueblo. |
Ela era uma casa de veraneio do
artista Carlos Páez Vilaró e hoje divide com o Conrad o cargo de hotel
cartão-postal de Punta Del Este. Na verdade, Casapueblo está em Punta Ballena,
mas como a distância é de apenas 18 km de Punta Del Este, é comum as pessoas
dizerem que foram a Punta Del Este e visitam Casapueblo. A casa é hotel, museu,
restaurante e habitação do próprio Vilaró. Nenhum dos 72 quartos do hotel é
igual ao outro, pois toda a infraestrutura foi construída quase que
manualmente. Voltada para as águas doces do Rio de La Plata, já levemente
temperadas pelo sal do Oceânico Atlântico, está a 130 km de Montevidéo, duas
horas de ônibus, por R$35,00. No entanto, para passagens de ônibus, você
precisa ter moeda local ou pagar no cartão, SE você comprar a passagem no
guichê da rodoviária. Pro resto, não se preocupe. Dá pra pagar em reais,
dólares ou pesos argentinos mesmo. Punta está a 744 km de Porto Alegre. A
empresa TTL tem ônibus de uma cidade a outra, com passagem por volta de
R$200,00, dez horas de viagem.
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Tentativa frustrada de fotografar toda a Casapueblo. |
Todo essa aparência primitiva que
a casa tem (parece uma coisa feita de pedra e barro) não nos faz imaginar que
ela tenha uma infraestrutura com centro de convenções e SPA, e que os quartos
possuam TV a cabo, frigobar, microondas, etc. Na verdade a casa é feita de
madeira. Vilaró, que não se considera arquiteto, pregou uma espécie de tela de
galinheiro nas paredes usando cimento e cal e pintou tudo de branco, porque
achou que a cor da madeira era meio triste e não combinava com a cor do mar e
do sol que se podia ver se pondo da varanda. Tem gente que tem sorte e dá de cara com ele andando pelo museu, pede um autógrafo ou tira uma foto. Não aconteceu comigo. Ele começou com essa sua estripulia em 1958, e foi
erguendo a casa aos poucos, praticamente a mão, mesma mão que cumprimentou as
várias celebridades que já estiveram no local; mesma mão que cumprimentou
doentes em suas visitas a África; mesma mão que resgatou seu filho da
Cordilheira Andina.
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Os móveis também parecem ser feitos de maneira igual às paredes. |
Vilaró já esteve no Brasil, na
Bahia, e disse que encontrou a África toda lá. É pai de um dos sobreviventes do
acidente do avião que transportava um time de rúgbi e que caiu na Cordilheira
dos Andes em 1972, famosa história que gerou o filme “Vivos”.
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Hotel Conrad, outro tipo de arte. |
O Hotel Conrad já tem outra cara.
É tudo muito luxuoso e ostentativo. É uma maravilha arquitetônica, assim como
Casapueblo, mas sem nenhum toque artesanal. Logo na entrada, um painel com
quadro de todos os famosos que já se hospedaram ali. Os brasileiros dominam a
parede, com fotos de Daniela Mercury, Alexandre Pires e companhia limitada. Isso
os dois lugares têm em comum. Vilaró tira fotos com as celebridades que visitam
sua casinha e costuma batizar os aposentos com os nomes delas, como Vinícius de
Moraes, Nelson Mandela e companhia limitada.
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À esquerda, segurança me pede pra não fotografar o cassino. |
No Conrad, depois de subir uma
escadaria de não sei quantos degraus (ou confortavelmente pela escada rolante),
há uma grande sacada com vista para o mar e um corredor, que dará em um hall
gigantesco onde é localizada a recepção, lan-house, shopping e um cassino, que
não pode ser fotografado por respeito à imagem dos clientes. Nem adianta
tentar, porque o teto tem mais câmeras do que lâmpadas. Com um dólar já dá pra
se divertir um pouquinho, depositando a nota diretamente na máquina. Se não
tiver familiaridade com a coisa, peça a algum velhinho de bengala ou cadeira de
rodas pra te ajudar. Funciona 24 horas, assim como o restaurante. Quartos? 294.
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Casapueblo é uma escultura que abriga outras esculturas. |
Vilaró define sua obra como uma
escultura pra se viver, mas será que essa também não poderia ser a definição do
Conrad? Não fiquei hospedado (ainda) em nenhum dos dois, só entrei e conheci um pouco dos dois, sem ter acesso a todas as repartições.
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Dá pra se perder lá dentro. |
A entrada para Casapueblo custa
R$15,00. Eu disse que é comum eles aceitarem reais lá. Abre às 10h e fecha
quando o sol se põe (poético, não?). Estive lá pela manhã porque o navio sempre
saía no fim da tarde, então não deu pra assistir à “Cerimônia do Sol”, que é
quando todos se sentam na varanda, por volta das 19h, e assistem ao pôr-do-sol
enquanto escutam o poema homônimo de Vilaró. Chegue então umas duas horas antes
disso, que aí você pode conhecer o restaurante, o museu, comprar alguma
lembrança (caaaaara), assistir aos vídeos que contam a história de vida do
artista e terminar o passeio vendo uma coisa tão cotidiana, mas que paramos tão
poucas vezes para apreciar.
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Casa de pedra, homens de pedra. |
"Da minha varanda eu vejo você vir
todos os dias como uma roda de fogo girando através de anos, pontual, sempre
presente, incentivando meu pensamento desde o dia em que comecei a erguer
Casapueblo e coloquei, sobre as rochas, o meu primeiro tijolo.": tradução minha de trecho do poema Ceremonia del Sol, de Carlos Paez Vilaró.