domingo, 26 de maio de 2013

O Senhor da Casa de Pedra


“Nunca entendi música, nem tive professores de pintura, nem sou arquiteto, no fundo sou um nada; nada mais do que um homem com paixão pra se expressar." 
Carlos Paez Vilaró, nada mais do que um homem com paixão pra se expressar.

Foto da foto de Casapueblo.
Ela era uma casa de veraneio do artista Carlos Páez Vilaró e hoje divide com o Conrad o cargo de hotel cartão-postal de Punta Del Este. Na verdade, Casapueblo está em Punta Ballena, mas como a distância é de apenas 18 km de Punta Del Este, é comum as pessoas dizerem que foram a Punta Del Este e visitam Casapueblo. A casa é hotel, museu, restaurante e habitação do próprio Vilaró. Nenhum dos 72 quartos do hotel é igual ao outro, pois toda a infraestrutura foi construída quase que manualmente. Voltada para as águas doces do Rio de La Plata, já levemente temperadas pelo sal do Oceânico Atlântico, está a 130 km de Montevidéo, duas horas de ônibus, por R$35,00. No entanto, para passagens de ônibus, você precisa ter moeda local ou pagar no cartão, SE você comprar a passagem no guichê da rodoviária. Pro resto, não se preocupe. Dá pra pagar em reais, dólares ou pesos argentinos mesmo. Punta está a 744 km de Porto Alegre. A empresa TTL tem ônibus de uma cidade a outra, com passagem por volta de R$200,00, dez horas de viagem.

Tentativa frustrada de fotografar toda a Casapueblo.
Todo essa aparência primitiva que a casa tem (parece uma coisa feita de pedra e barro) não nos faz imaginar que ela tenha uma infraestrutura com centro de convenções e SPA, e que os quartos possuam TV a cabo, frigobar, microondas, etc. Na verdade a casa é feita de madeira. Vilaró, que não se considera arquiteto, pregou uma espécie de tela de galinheiro nas paredes usando cimento e cal e pintou tudo de branco, porque achou que a cor da madeira era meio triste e não combinava com a cor do mar e do sol que se podia ver se pondo da varanda. Tem gente que tem sorte e dá de cara com ele andando pelo museu, pede um autógrafo ou tira uma foto. Não aconteceu comigo. Ele começou com essa sua estripulia em 1958, e foi erguendo a casa aos poucos, praticamente a mão, mesma mão que cumprimentou as várias celebridades que já estiveram no local; mesma mão que cumprimentou doentes em suas visitas a África; mesma mão que resgatou seu filho da Cordilheira Andina.

Os móveis também parecem ser feitos de maneira igual às paredes.
Vilaró já esteve no Brasil, na Bahia, e disse que encontrou a África toda lá. É pai de um dos sobreviventes do acidente do avião que transportava um time de rúgbi e que caiu na Cordilheira dos Andes em 1972, famosa história que gerou o filme “Vivos”.

Hotel Conrad, outro tipo de arte.
O Hotel Conrad já tem outra cara. É tudo muito luxuoso e ostentativo. É uma maravilha arquitetônica, assim como Casapueblo, mas sem nenhum toque artesanal. Logo na entrada, um painel com quadro de todos os famosos que já se hospedaram ali. Os brasileiros dominam a parede, com fotos de Daniela Mercury, Alexandre Pires e companhia limitada. Isso os dois lugares têm em comum. Vilaró tira fotos com as celebridades que visitam sua casinha e costuma batizar os aposentos com os nomes delas, como Vinícius de Moraes, Nelson Mandela e companhia limitada.

À esquerda, segurança me pede pra não fotografar o cassino.
No Conrad, depois de subir uma escadaria de não sei quantos degraus (ou confortavelmente pela escada rolante), há uma grande sacada com vista para o mar e um corredor, que dará em um hall gigantesco onde é localizada a recepção, lan-house, shopping e um cassino, que não pode ser fotografado por respeito à imagem dos clientes. Nem adianta tentar, porque o teto tem mais câmeras do que lâmpadas. Com um dólar já dá pra se divertir um pouquinho, depositando a nota diretamente na máquina. Se não tiver familiaridade com a coisa, peça a algum velhinho de bengala ou cadeira de rodas pra te ajudar. Funciona 24 horas, assim como o restaurante. Quartos? 294.

Casapueblo é uma escultura que abriga outras esculturas.
Vilaró define sua obra como uma escultura pra se viver, mas será que essa também não poderia ser a definição do Conrad? Não fiquei hospedado (ainda) em nenhum dos dois, só entrei e conheci um pouco dos dois, sem ter acesso a todas as repartições.

Dá pra se perder lá dentro.
A entrada para Casapueblo custa R$15,00. Eu disse que é comum eles aceitarem reais lá. Abre às 10h e fecha quando o sol se põe (poético, não?). Estive lá pela manhã porque o navio sempre saía no fim da tarde, então não deu pra assistir à “Cerimônia do Sol”, que é quando todos se sentam na varanda, por volta das 19h, e assistem ao pôr-do-sol enquanto escutam o poema homônimo de Vilaró. Chegue então umas duas horas antes disso, que aí você pode conhecer o restaurante, o museu, comprar alguma lembrança (caaaaara), assistir aos vídeos que contam a história de vida do artista e terminar o passeio vendo uma coisa tão cotidiana, mas que paramos tão poucas vezes para apreciar.

Casa de pedra, homens de pedra.
"Da minha varanda eu vejo você vir todos os dias como uma roda de fogo girando através de anos, pontual, sempre presente, incentivando meu pensamento desde o dia em que comecei a erguer Casapueblo e coloquei, sobre as rochas, o meu primeiro tijolo.": tradução minha de trecho do poema Ceremonia del Sol, de Carlos Paez Vilaró.